O governo dos Estados Unidos afirmou que enviará ao Brasil, nas próximas semanas, uma proposta formal para negociar o tarifaço que atinge produtos brasileiros. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (30) após reunião entre os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria e Comércio) com o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, em Milwaukee, onde ocorre a reunião ministerial de comércio do G20.
Segundo nota conjunta do Itamaraty e do MDIC, o documento norte-americano deve contemplar "questões tarifárias e não tarifárias" e definir o escopo das negociações. Também ficou acordada a criação de um Grupo de Trabalho para discutir os termos de um possível acordo. Apesar do tom positivo, diplomatas brasileiros afirmam que os EUA ainda não indicaram qualquer sinal de reversão das tarifas que já estão em vigor.
Dois tarifaços, dois motivos: entenda o que está em jogo
O Brasil enfrenta, na prática, duas sobretaxas impostas por Washington. A primeira, de 25%, foi justificada pela Casa Branca como resposta a "práticas desleais" do Brasil em áreas como PIX, etanol e propriedade intelectual. A segunda, de 12,5%, tem origem em outra queixa: os EUA entendem que dezenas de países, incluindo o Brasil, não fizeram o suficiente para coibir a importação de mercadorias de países onde há trabalho forçado.
Para o brasileiro que vive nos EUA, o efeito não é apenas diplomático. As tarifas encarecem produtos brasileiros exportados para o mercado americano — de calçados a sucos, passando por aço e etanol. Esse custo pode ser repassado ao consumidor final, inclusive nas lojas e mercados que vendem itens brasileiros em cidades como Newark, Miami, Boston e Orlando, onde a comunidade brasileira é numerosa.
Câmbio e remessas: o efeito prático no bolso de quem vive nos EUA
Ainda que as tarifas não atinjam diretamente o trabalhador brasileiro nos EUA, elas influenciam o câmbio. Quando há tensão comercial, o real tende a perder valor frente ao dólar, encarecendo as remessas de dinheiro para o Brasil. Cada tarifaço anunciado desde 2024 já provocou oscilações no dólar, o que impacta diretamente quem manda dólares para familiares no Brasil ou guarda economias em reais.
A promessa de negociação, no entanto, traz certo alívio. "O simples anúncio de que os EUA estão dispostos a conversar reduz, por ora, o risco de uma escalada maior", avaliaram diplomatas ouvidos pela reportagem. Isso pode dar mais estabilidade ao câmbio nas próximas semanas, ainda que o cenário continue incerto até que o conteúdo da proposta americana seja conhecido.
Brasil vai à OMC, e os EUA resistem à entrada da China
Em paralelo às negociações diretas, o Brasil acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC). O país abriu um pedido de consultas formais, alegando que os EUA tratam o Brasil de maneira diferente dos demais parceiros comerciais. Na prática, o Brasil argumenta que as tarifas foram usadas como instrumento político, e não técnico, já que as justificativas americanas foram consideradas frágeis pelos negociadores brasileiros.
Os EUA responderam que estão "à disposição" para discutir o assunto na OMC, mas não deram sinais de reversão das tarifas. Na semana passada, representantes de Lula e Trump se reuniram em Genebra, na sede da organização, para tentar destravar o diálogo. Com isso, abriu-se um prazo de 60 dias para as partes chegarem a um consenso. Se não houver acordo, uma das partes pode pedir a abertura de um painel — na prática, um tribunal da OMC que julgaria o caso, o que pode levar anos.
Um detalhe que complica ainda mais o tabuleiro: a China pediu formalmente para participar do processo na OMC como parte interessada, mas os EUA se opuseram à entrada dos chineses. O movimento de Pequim é visto como estratégico — a China também vive uma guerra comercial com Washington e observa atentamente o caso brasileiro como potencial precedente.
O que fazer enquanto a proposta não chega
Para brasileiros nos EUA que importam produtos do Brasil ou que dependem de remessas para o país de origem, o momento pede atenção. Especialistas ouvidos nos bastidores das negociações recomendam:
- Acompanhe o anúncio da proposta americana: a expectativa é que saia em semanas; se vier com redução de tarifas, o real deve se valorizar e o dólar cair, favorecendo quem envia dinheiro ao Brasil.
- Diversifique o envio de remessas: pequenos envios em momentos de alta do dólar podem render mais reais; use plataformas que ofereçam câmbio competitivo e taxas baixas.
- Avalie estoques de produtos brasileiros: quem importa alimentos ou bebidas do Brasil para revender em mercados locais deve comprar antes de uma possível queda do dólar, aproveitando preços ainda menores em reais.
- Fique de olho no setor de etanol e agro: se as negociações avançarem, setores como o de etanol podem voltar a crescer, gerando empregos e movimentando a economia em nichos onde brasileiros atuam nos EUA.
Próximos passos: negociação, OMC e o risco de um novo impasse
Ainda não há cronograma oficial para a entrega do documento com a proposta americana, mas a equipe econômica brasileira trabalha com a expectativa de que ele chegue até o fim de maio. Caso o documento seja vago ou mantenha as tarifas atuais, o Brasil deve intensificar o caso na OMC — os 60 dias do prazo de consultas correm desde a reunião de Genebra na semana passada.
Diplomatas brasileiros não descartam a possibilidade de, ao final, o caso ir para um painel na OMC, o que seria uma vitória simbólica, mas de efeito lento. Para quem vive nos EUA, o essencial é entender que a briga comercial ainda está longe de um desfecho. A promessa de negociação é sinal de diálogo, mas as tarifas de 25% e 12,5% continuam valendo até que um acordo concreto seja assinado — e isso pode levar meses.
Por que isso importa para a comunidade brasileira nos EUA
Mais de 1,9 milhão de brasileiros vivem nos EUA, boa parte em estados como Flórida, Massachusetts, Nova Jersey e Califórnia. Muitos mantêm laços econômicos com o Brasil, seja enviando remessas, seja importando produtos para negócios locais. Qualquer mudança nas regras de comércio entre os dois países provoca efeitos em cadeia: no câmbio, no preço de produtos brasileiros nas prateleiras e até no custo de passagens aéreas e serviços turísticos.
A reunião de Milwaukee foi a terceira rodada de conversas bilaterais em menos de um mês, o que indica que os dois governos querem evitar o aprofundamento da crise. Mas o tema político pesa: a continuidade do tarifaço é vista como uma bandeira eleitoral de Trump, que promete proteger a indústria americana. Ou seja, um acordo pode ser difícil de fechar rapidamente, mas a manutenção do diálogo evita o pior — uma escalada que encareceria ainda mais a vida de quem depende de importações ou remessas.
Fique atento aos próximos anúncios
Enquanto a proposta americana não chega, o momento é de expectativa e planejamento. Para quem tem negócios que dependem de importação de produtos brasileiros, a recomendação é manter estoques moderados e acompanhar o noticiário econômico. Para quem envia remessas, a dica é monitorar a cotação do dólar e usar ferramentas de alerta de câmbio.
O Brasil, por sua vez, trabalha em duas frentes: a diplomática, tentando um acordo bilateral que reduza as tarifas, e a jurídica, com o caso na OMC. A entrada da China no processo, ainda que barrada pelos EUA, mostra que o caso brasileiro é observado de perto pelo mundo. O resultado dessas negociações pode redefinir não só as relações comerciais entre Brasil e EUA, mas também servir de precedente para outros países que se sintam atingidos por medidas unilaterais de Washington.


