O Canadá começou a aplicar nesta terça-feira (8 de outubro de 2025) novas tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos, escalando a guerra comercial entre os dois países. As alíquotas variam de 15% a 50% e atingem mercadorias avaliadas em 27,6 bilhões de dólares canadenses (cerca de US$ 20 bilhões, ou R$ 103 bilhões na cotação atual). Para brasileiros que vivem nos EUA, a medida pode pressionar os preços de insumos essenciais como aço e alumínio, além de eletrodomésticos, impactando diretamente o custo de vida e setores como construção e manufatura.

Retaliação proporcional: alíquotas de 15%, 25% e 50%

As novas tarifas canadenses foram desenhadas para atingir mercadorias americanas dos mesmos setores afetados pelas barreiras impostas recentemente pelos Estados Unidos. A ideia é fazer uma retaliação proporcional: quando Washington aplica uma determinada tarifa a um produto canadense, Ottawa cobra uma taxa equivalente sobre mercadorias americanas correspondentes. As alíquotas são de 15%, 25% e 50%, dependendo do produto. A lista inclui aço, alumínio, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, papel e celulose, plásticos e componentes eletrônicos.

As medidas não atingem mercadorias americanas que já estavam em trânsito para o Canadá quando as tarifas entraram em vigor. Além disso, a cobrança vale apenas para produtos considerados de origem americana. O Canadá também mantém as tarifas de retaliação que já estavam em vigor sobre automóveis americanos.

Cronologia da guerra comercial: de tarifas sobre aço a imposto digital

A disputa atual começou no início de 2025, quando Donald Trump, em seu segundo mandato, anunciou tarifas sobre produtos canadenses. Entre as justificativas apresentadas pelo governo americano estavam o combate ao tráfico de fentanil e a redução do déficit comercial dos Estados Unidos. A entrada em vigor chegou a ser adiada por 30 dias após negociações entre os dois governos. Em março, porém, Washington colocou em vigor uma tarifa de 25% sobre diversos produtos canadenses e uma taxa de 10% sobre parte das importações de energia.

Ottawa respondeu com sua primeira grande lista de retaliação, que incluía alimentos, bebidas, eletrodomésticos, roupas e outros bens de consumo. Pouco depois, o conflito ganhou um novo foco. Os Estados Unidos passaram a cobrar 25% sobre aço e alumínio importados, e o Canadá respondeu com novas tarifas sobre produtos americanos, entre eles aço, alumínio, computadores, servidores, monitores e equipamentos esportivos.

O setor automotivo entrou na disputa na sequência. Também em março de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 25% sobre automóveis importados. As regras estabeleciam um tratamento diferente para veículos que cumprissem as exigências do acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, conhecido pela sigla USMCA. Em abril, o Canadá respondeu com tarifas sobre veículos americanos que não se enquadravam nas regras do acordo e sobre determinados componentes produzidos fora da América do Norte.

Mesmo com a escalada, os governos continuaram tentando chegar a um acordo. Em maio, o primeiro-ministro canadense Mark Carney se reuniu com Trump na Casa Branca. No mês seguinte, os dois países estabeleceram um prazo de 30 dias para tentar avançar nas negociações. A tentativa não prosperou. Em junho, as conversas foram interrompidas após uma disputa envolvendo o imposto canadense sobre serviços digitais. O Canadá posteriormente retirou a medida na tentativa de reabrir as negociações, mas Washington já havia elevado as tarifas sobre produtos canadenses para 50%.

O que muda para o brasileiro nos EUA: construção e manufatura na mira

Para brasileiros que vivem nos Estados Unidos, o principal impacto da escalada tarifária está no custo de materiais de construção e bens de consumo. Aço e alumínio — insumos básicos para a construção civil, reformas e manufatura — estão entre os produtos mais afetados. Segundo dados do setor, aço e alumínio representam parcela significativa dos custos de obras residenciais e comerciais. Com a imposição de tarifas canadenses, os preços desses materiais podem subir nos EUA, já que o Canadá é um dos maiores fornecedores de aço e alumínio para o mercado americano.

Além disso, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, plásticos e componentes eletrônicos também estão na lista de retaliação. Isso significa que itens como geladeiras, fogões, computadores e servidores podem ficar mais caros, tanto para consumidores quanto para empresas. Brasileiros que trabalham com manufatura, importação ou comércio varejista devem ficar atentos às cadeias de suprimento e aos repasses de preços ao consumidor final.

Ainda não há projeções oficiais de aumento de preços nos EUA, mas economistas alertam que o efeito cascata pode chegar ao varejo em algumas semanas. Para quem está planejando reformas ou compras de equipamentos, pode ser prudente antecipar aquisições ou buscar fornecedores alternativos fora do eixo EUA-Canadá.

Próximos passos: negociações paradas e risco de novas tarifas

A guerra comercial entre EUA e Canadá não mostra sinais de arrefecimento. Após o fracasso das negociações em agosto de 2025, as duas partes endureceram suas posições. O Canadá já sinalizou que manterá as tarifas de retaliação enquanto Washington não rever suas taxas sobre aço, alumínio e automóveis. Do lado americano, Trump já ameaçou novas medidas se Ottawa não ceder nas questões do imposto digital e do acesso ao mercado de laticínios canadense.

Especialistas em comércio internacional avaliam que a situação pode se arrastar por meses, com impactos não apenas nos preços, mas também na confiança de investidores e no fluxo de comércio entre os dois países. Para brasileiros residentes nos EUA, a recomendação é acompanhar de perto as notícias e se preparar para um ambiente de custos mais elevados, especialmente nos setores de construção, manufatura e varejo. O desfecho da disputa dependerá de novas rodadas de negociação, que até o momento não têm data marcada.