Trump aposta em importação recorde para conter inflação da carne

O governo Trump anunciou um plano de 90 dias para autorizar a importação de volumes maiores de carne bovina, com o objetivo declarado de derrubar os preços que atingiram o maior patamar da história dos Estados Unidos. A medida, ainda em fase de articulação, representa uma virada na política comercial da Casa Branca, que até então priorizava a proteção do mercado interno. Para as famílias brasileiras que vivem no país, a notícia chega como um possível alívio no bolso: o preço do quilo da carne nos supermercados americanos subiu mais de 15% no último ano, segundo dados do Departamento de Agricultura (USDA).

Segundo fontes da Casa Branca, o plano prevê a suspensão temporária de cotas e tarifas que limitam a entrada de carne de países como Brasil, Argentina e Austrália. A intenção é aumentar a oferta em 20% a 30% durante o período de vigência, forçando uma queda nos preços ao consumidor. A iniciativa, porém, já divide opiniões dentro do próprio partido republicano e entre os pecuaristas, que enxergam a concorrência estrangeira como uma ameaça direta aos seus negócios.

Pecuária americana reage contra abertura de mercado

A Associação Nacional de Pecuaristas (NCBA, na sigla em inglês) manifestou publicamente sua oposição ao plano, argumentando que a importação temporária de carne bovina pode desestabilizar o setor justamente no momento em que os produtores enfrentam custos elevados com ração, transporte e mão de obra. “A solução para o preço alto não é abrir as porteiras para a carne estrangeira, mas sim reduzir a burocracia e os custos para o produtor americano”, disse um porta-voz da entidade, em comunicado.

A resistência também veio de parlamentares republicanos de estados do Meio-Oeste, como Nebraska, Kansas e Texas, onde a pecuária é um dos pilares da economia. O senador Pete Ricketts (R-NE) afirmou que “importar mais carne pode dar um alívio de curto prazo, mas vai destruir o sustento de milhares de famílias do campo”. A ala mais conservadora do partido, que tradicionalmente defende o livre mercado, agora se vê dividida: o pragmatismo eleitoral de combater a inflação colide com a base rural que sustenta Trump.

Preço recorde aperta orçamento de brasileiros nos EUA

Para a comunidade brasileira espalhada por estados como Flórida, Massachusetts e Califórnia, o preço da carne tem sido um dos itens que mais pesam no carrinho de compras. Em Miami, o quilo do patinho chega a custar US$ 12 em supermercados convencionais, enquanto cortes como picanha e alcatra ultrapassam os US$ 20. A auxiliar de cozinha paulistana Renata Oliveira, que vive em Orlando há três anos, conta que reduziu o consumo de carne vermelha pela metade. “A gente sempre gostou de fazer churrasco no fim de semana, mas hoje é luxo. Se baixar um pouco, já ajuda.”

Especialistas apontam que a alta dos preços foi impulsionada por uma combinação de fatores: seca nos pastos americanos, aumento do custo dos grãos usados na ração e a forte demanda global por carne bovina. O USDA projeta que o preço médio da carne no varejo deve continuar subindo até meados de 2025, mesmo com a trégua inflacionária em outros setores. Nesse cenário, a abertura das importações aparece como a ferramenta mais rápida à disposição do governo para conter a pressão.

Os riscos da medida para o produtor e o consumidor

Apesar do potencial de baixar os preços, a medida de 90 dias também carrega riscos. O economista agrícola da Universidade de Purdue, Jayson Lusk, alerta que uma enxurrada de carne importada pode desorganizar as cadeias de suprimento e forçar os pecuaristas americanos a venderem abaixo do custo, gerando perdas que, no médio prazo, reduzem a oferta doméstica e podem levar a novos aumentos. “O efeito pode ser o oposto do desejado se não houver um planejamento cuidadoso”, afirmou Lusk, em entrevista à agência Reuters.

Outro ponto de preocupação é o padrão sanitário. Os EUA exigem que a carne importada atenda a rigorosos critérios de inspeção, mas pecuaristas locais questionam se o governo terá capacidade de fiscalizar o aumento repentino do volume. O Brasil, um dos maiores exportadores de carne bovina do mundo, tem capacidade de atender à demanda, mas enfrenta barreiras sanitárias históricas — o país ainda não está liberado para exportar carne fresca para os EUA, apenas carne cozida ou enlatada. A medida só teria efeito prático se houver agilidade na aprovação de novos certificados.

O que está em jogo para os brasileiros nos EUA

Para a maioria dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos, a carne é um item central na alimentação — seja no churrasco de fim de semana, no PF do dia a dia ou na costela assada do almoço de domingo. A redução de preços, mesmo que temporária, poderia liberar recursos para outras despesas, como aluguel e saúde. No entanto, a velocidade da implementação e a resistência política podem atrasar ou até inviabilizar o plano.

O presidente Trump precisa costurar um acordo com o Congresso para aprovar a suspensão das cotas, já que a legislação comercial atual exige aprovação legislativa para mudanças tarifárias. Enquanto isso, a ala republicana mais ligada ao agronegócio pressiona para que o governo adote medidas alternativas, como subsídios diretos aos pecuaristas ou flexibilização de regras ambientais para aumentar a produção doméstica. “O caminho mais fácil é importar, mas o mais inteligente é fortalecer quem produz aqui”, resumiu o deputado federal Roger Williams (R-TX), que preside a comissão de agricultura da Câmara.

Próximos passos e expectativas

A Casa Branca deve enviar ao Congresso um projeto de lei autorizando a importação extra de carne bovina por 90 dias, sob a justificativa de emergência econômica. A expectativa é que a proposta seja debatida nas próximas duas semanas, em meio a fortes lobbies favoráveis e contrários. Para o consumidor brasileiro-americano, a recomendação prática é acompanhar as notícias e, se a medida for aprovada, comparar preços entre cortes nacionais e importados nos supermercados — a diferença pode chegar a 30%.

Caso o plano passe, o Brasil pode ser um dos maiores beneficiados, já que a indústria frigorífica nacional tem capacidade ociosa e preços competitivos. No entanto, a homologação sanitária para carne fresca ainda é um entrave. O governo brasileiro, por meio da Apex-Brasil, já sinalizou disposição para acelerar as negociações técnicas. “Estamos prontos para atender o mercado americano com a qualidade de sempre”, disse o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), em nota.

Se a resistência dos pecuaristas e republicanos se concretizar, Trump pode recuar ou apresentar uma versão reduzida do plano, limitando a importação a países com acordos já existentes, como México e Canadá. Nesse caso, o alívio para o bolso do brasileiro nos EUA seria menor, mas ainda assim positivo. O certo é que a carne continuará no centro do debate econômico e político americano pelos próximos meses.