O promotor público de Manhattan, Alvin Bragg, lançou um apelo direto aos trabalhadores de baixa renda da cidade para que denunciem casos de roubo de salário – uma prática que, segundo o Economic Policy Institute, custa mais de US$ 50 bilhões por ano aos trabalhadores nos Estados Unidos. A campanha faz parte de um esforço mais amplo de Nova York para coibir abusos contra empregados vulneráveis, muitos deles imigrantes.

Roubo de salário: um crime silencioso que afeta milhares de brasileiros em NYC

O wage theft, ou roubo de salário, ocorre quando empregadores deixam de pagar horas extras, pagam menos que o mínimo legal, não pagam por horas trabalhadas ou simplesmente ignoram o acerto final. Para a comunidade brasileira que trabalha em setores como construção civil, limpeza, restaurantes e delivery, o problema é particularmente grave. Muitos imigrantes, por medo de represálias ou por desconhecerem seus direitos, acabam não denunciando. Segundo o Departamento do Trabalho de Nova York, as denúncias de roubo de salário envolvendo trabalhadores imigrantes cresceram nos últimos anos, mas o número real de casos é muito maior – estima-se que a maioria das ocorrências nunca chega às autoridades.

Casos como o de Maria, uma brasileira que trabalhou seis meses em uma lavanderia no Queens sem receber horas extras, são comuns. Após ser demitida, o patrão se recusou a pagar os salários atrasados. Ela procurou o Brazilian Worker Center, que a orientou a denunciar ao Departamento do Trabalho do Estado. Com a ajuda da organização, Maria conseguiu recuperar US$ 4.500. No entanto, muitos trabalhadores ainda têm medo de denunciar, temendo retaliação ou deportação.

Ação do DA de Manhattan: o que muda para o trabalhador

O gabinete do promotor de Manhattan, Alvin Bragg, está intensificando a fiscalização e incentivando denúncias. “Queremos que todos os trabalhadores, independentemente do status migratório, saibam que podem denunciar sem medo”, afirmou o promotor em comunicado. A campanha inclui materiais em vários idiomas e parcerias com organizações comunitárias. O escritório do DA também criou uma linha direta para denúncias trabalhistas (212-335-9000) e um site com informações sobre como identificar e denunciar o roubo de salário. Além disso, a unidade de crimes trabalhistas do DA de Manhattan investiga e processa empregadores que violam a lei.

Números alarmantes: US$ 50 bilhões perdidos por ano

De acordo com estimativas do Economic Policy Institute, o roubo de salário representa uma perda anual de mais de US$ 50 bilhões para os trabalhadores americanos. Em Nova York, setores como construção e serviços domésticos são os mais afetados. A cidade já tem leis rigorosas contra a prática, como a Lei de Combate ao Roubo de Salário (Wage Theft Prevention Act), que exige que empregadores forneçam comprovantes de pagamento detalhados e paguem multas severas em caso de violação. No entanto, a aplicação ainda enfrenta desafios, especialmente quando as vítimas são imigrantes indocumentados que temem deportação. A campanha do DA de Manhattan busca justamente superar esse medo e aumentar o número de denúncias.

Proteção legal para imigrantes indocumentados

Uma das principais barreiras para denunciar o roubo de salário é o medo da deportação. No entanto, a lei de Nova York protege todos os trabalhadores, independentemente do status migratório. O DA de Manhattan garante que não irá compartilhar informações com o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) durante as investigações trabalhistas. Além disso, a cidade possui a lei Local Law 43, que proíbe a cooperação entre agências municipais e federais de imigração em casos de denúncias de violações trabalhistas. Organizações como a Make the Road New York e o Brazilian Worker Center oferecem suporte jurídico gratuito para que os trabalhadores possam denunciar sem riscos.

Como denunciar: passo a passo para trabalhadores vítimas de wage theft

  • Reúna provas: contracheques, registros de ponto, mensagens, e-mails ou qualquer documento que comprove as horas trabalhadas e o valor recebido.
  • Entre em contato com o escritório do promotor de Manhattan: ligue para a linha de denúncias trabalhistas (212-335-9000) ou acesse o site do DA (manhattanda.org).
  • Procure organizações de apoio: entidades como o Brazilian Worker Center, o New York Legal Assistance Group (NYLAG) e a Make the Road New York oferecem assistência gratuita para trabalhadores imigrantes.
  • Denuncie ao Departamento do Trabalho do Estado de Nova York (NYSDOL): o órgão investiga violações de salário mínimo e horas extras e pode aplicar multas aos empregadores.
  • Considere uma ação judicial: com auxílio de um advogado trabalhista, é possível reaver valores atrasados com multas e danos morais. Muitos escritórios de advocacia oferecem consultas gratuitas.

O que esperar daqui para frente

A campanha do promotor de Manhattan sinaliza um endurecimento no combate ao roubo de salário. Para a comunidade brasileira, a iniciativa representa uma oportunidade de recuperar dinheiro perdido e, ao mesmo tempo, coibir abusos. Organizações locais recomendam que os trabalhadores não hesitem em denunciar, mesmo que o empregador ameace com deportação – a lei de Nova York protege denunciantes independentemente do status migratório. Além disso, o DA de Manhattan prometeu priorizar casos de roubo de salário em setores com alta concentração de imigrantes, como construção e serviços domésticos. A expectativa é que, com mais denúncias, o número de investigações e recuperações de salários aumente nos próximos meses. A comunidade brasileira, que já enfrenta desafios no mercado de trabalho, pode se beneficiar diretamente dessa ação mais rigorosa das autoridades.