O governo dos Estados Unidos reabriu uma travessia de fronteira no Arizona para a importação de gado mexicano, como parte de um esforço mais amplo da administração Trump para reduzir os preços da carne bovina, que estão em níveis quase recordes. A medida, anunciada nesta semana, reativa uma rota comercial que havia sido fechada por questões sanitárias, mas a expectativa de alívio imediato no bolso do consumidor é contestada por economistas.

Fronteira de Nogales reabre para o gado mexicano

A travessia reaberta fica em Nogales, Arizona, um dos principais pontos de entrada para o gado proveniente do México. O fluxo havia sido interrompido em 2023 devido a preocupações com a mosca-da-bicheira (screwworm), uma praga que afeta o gado. Com o restabelecimento das inspeções sanitárias e acordos bilaterais, a fronteira foi liberada novamente para o trânsito de bovinos vivos destinados ao abate e à engorda nos EUA.

O México é um dos maiores fornecedores de gado para os Estados Unidos, e a reabertura de Nogales era esperada por pecuaristas americanos que enfrentam escassez de oferta. A decisão se alinha a uma promessa da Casa Branca de combater a inflação alimentar, que tem pressionado o orçamento das famílias – especialmente as de imigrantes, como os brasileiros que vivem no país.

Preços recordes da carne bovina apertam o bolso do consumidor

Os preços da carne bovina nos EUA atingiram patamares próximos dos recordes históricos nos últimos meses. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o custo médio do quilo do corte de acém (chuck) subiu mais de 12% no último ano, enquanto cortes nobres como o filé mignon chegaram a custar mais de US$ 30 o quilo em algumas regiões. Para a comunidade brasileira, que tem na carne bovina um item central da dieta, o impacto é ainda maior.

A alta é atribuída a uma combinação de fatores: redução do rebanho americano devido a secas severas no Meio-Oeste e no Texas, custos elevados de ração e mão de obra, e a demanda aquecida tanto no mercado interno quanto nas exportações. A reabertura da fronteira com o México foi apresentada como uma medida para aumentar a oferta e, assim, conter os preços.

Por que economistas descartam queda expressiva nos preços

Apesar do anúncio oficial, economistas não esperam que a reabertura da fronteira em Arizona seja suficiente para reduzir os altos preços da carne bovina. A avaliação, baseada em análises de mercado, aponta que o volume adicional de gado mexicano representa uma fração pequena da oferta total do país. “A capacidade de impacto dessa medida é limitada”, afirmam especialistas do setor, em declarações reproduzidas pela imprensa americana.

Mesmo com a reabertura, o gado importado precisa passar por quarentenas e inspeções que podem atrasar a chegada aos frigoríficos. Além disso, a demanda doméstica continua forte, e os custos de produção – como transporte e processamento – não devem cair no curto prazo. Para os economistas, a medida pode evitar novos aumentos, mas não reverter a trajetória de alta.

Outro fator que pesa contra a redução dos preços é a estrutura do mercado de carne bovina nos EUA, dominado por grandes frigoríficos que controlam a maior parte do abate. A concentração do setor permite que as empresas mantenham margens elevadas, mesmo com variações na oferta de matéria-prima. Assim, o benefício da maior oferta pode não chegar integralmente ao consumidor final.

O que esperar para o brasileiro nos EUA

Para os brasileiros que vivem nos Estados Unidos, a expectativa de carne mais barata nos supermercados deve ser moderada. A comunidade brasileira, presente em estados como Massachusetts, Flórida, Califórnia e Nova Jersey, costuma consumir cortes como picanha, alcatra e fraldinha, que estão entre os que mais encareceram. Uma eventual queda de preços, mesmo que pequena, representaria um alívio no orçamento mensal de alimentação, que já pesa mais para famílias de imigrantes.

No entanto, a realidade é que a reabertura da fronteira, por si só, dificilmente fará com que o preço da picanha caia de forma perceptível. O economista-chefe do American Farm Bureau Federation, citado por veículos de imprensa, destacou que o impacto da medida será mais sentido nos preços do gado em pé do que nos cortes embalados. Isso significa que pecuaristas americanos podem ter algum alívio, mas o consumidor final pode não ver diferença nas gôndolas.

Além disso, a sazonalidade do mercado de carnes – com aumento de demanda no verão e nas festas de fim de ano – tende a manter a pressão sobre os preços. A reabertura em Nogales deve ser acompanhada de outras medidas governamentais, como incentivos à produção doméstica e à modernização de frigoríficos, para que o efeito seja mais amplo.

Próximos passos: ampliação ou manutenção da medida?

O governo Trump sinalizou que a reabertura da fronteira em Arizona pode ser o primeiro passo de uma estratégia mais ampla para conter os preços dos alimentos. Há conversas em andamento para liberar também a importação de gado por outros estados, como Texas e Novo México, o que aumentaria significativamente o volume de carne disponível. No entanto, essas negociações dependem de acordos sanitários e da aprovação de pecuaristas americanos, que temem concorrência.

Enquanto isso, os consumidores brasileiros nos EUA devem ficar atentos às promoções sazonais e buscar alternativas como cortes mais baratos (acém, paleta, carne moída) ou proteínas substitutas (frango, porco) para equilibrar o orçamento. Acompanhar as notícias do setor e comparar preços em diferentes redes de supermercados também pode ajudar a encontrar melhores ofertas.

Em resumo, a reabertura da fronteira para o gado mexicano em Arizona é uma medida positiva para o abastecimento, mas os brasileiros não devem esperar uma queda drástica nos preços da carne bovina. A economia doméstica ainda depende de fatores mais amplos, como a política monetária, os custos logísticos e a dinâmica da oferta e demanda. O alívio, se vier, será gradual e provavelmente modesto.