O presidente Donald Trump anunciou nesta sexta-feira (28) que prepara uma ordem executiva para permitir que pecuaristas e agricultores processem sua própria carne, num movimento direto contra as quatro empresas que dominam o setor. Em sua rede social, Trump afirmou que há anos ouve reclamações sobre “as grandes processadoras, que muitos consideram um monopólio nefasto”. A medida, se implementada, promete sacudir um mercado que já enfrenta os maiores preços ao consumidor em décadas — e que afeta diretamente o bolso dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos.
Preço da carne moída sobe 79% em seis anos
Os números não mentem: segundo o Bureau of Labor Statistics, uma libra (453,59 gramas) de carne moída custava em junho último US$ 6,82 — uma alta de 79% em relação ao início de 2019. Esse aumento brutal é sentido no caixa do supermercado por milhões de famílias, incluindo a comunidade brasileira, que consome carne como item básico da dieta. A inflação alimentar, aliás, é um dos temas que mais pressionam o governo Trump às vésperas das eleições de meio de mandato em novembro.
O encarecimento da carne bovina nos EUA tem causas estruturais. O rebanho norte-americano está no menor nível em 75 anos, e o preço do gado atingiu recordes históricos. Para piorar, os EUA suspenderam em 2025 a maior parte das importações de gado mexicano devido ao avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, uma praga que infesta o gado. Com oferta encolhida e demanda firme, os preços foram repassados ao consumidor.
Quatro empresas, uma dominância que incomoda
Por trás da carestia, Trump aponta um vilão: a concentração do processamento de carne. Segundo a agência Reuters, quatro companhias controlam cerca de 85% do mercado: Cargill, Tyson Foods, JBS USA e National Beef Packing. Destas, a JBS USA é uma subsidiária da brasileira JBS S.A., que tem sua sede em São Paulo e é uma das maiores processadoras de carne do mundo. O fato de uma empresa brasileira estar no centro de um alvo de Trump acrescenta uma camada de complexidade para a comunidade brasileira nos EUA — que, ao mesmo tempo que ganharia com preços mais baixos, vê uma gigante nacional sob escrutínio.
Trump não citou nominalmente nenhuma das empresas, mas deixou claro que o problema é antigo. “Há anos ouço que enfrentam um enorme problema com as grandes processadoras, que muitos consideram um monopólio nefasto”, escreveu em sua rede social. O presidente afirmou que autorizou a elaboração de documentos legais para “quebrar” esse poder.
O que a ordem pode mudar na prática
A ordem executiva prometida por Trump permitiria que pecuaristas e agricultores processem seus próprios alimentos — ou seja, que vendam carne diretamente ao consumidor ou a varejistas sem depender dos grandes frigoríficos. Na prática, isso reduziria a concentração e, em tese, aumentaria a concorrência, derrubando os preços. No entanto, Trump não deu detalhes sobre o texto nem uma data para a assinatura, limitando-se a dizer que as equipes jurídicas estão trabalhando.
A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, adiantou que haverá “grandes anúncios” a partir de segunda-feira (31). Entre as medidas esperadas: ampliação da capacidade dos pecuaristas venderem seus produtos entre estados, maior apoio a pequenos processadores e o cancelamento de “orientações desatualizadas” do Departamento de Agricultura (USDA). A declaração ocorreu dias depois de Trump participar de um podcast onde o apresentador Glenn Beck sugeriu que as regras do USDA tornam os produtores reféns da indústria processadora.
JBS no centro do debate: o que esperar
Para os brasileiros que trabalham ou investem nos EUA, a presença da JBS no alvo de Trump gora dúvidas. A empresa é uma das maiores empregadoras no setor de carnes, com dezenas de plantas nos EUA. Se a ordem executiva reduzir a concentração, a JBS poderá ter que adaptar seu modelo de negócios ou até perder market share. Por outro lado, a companhia já opera em mais de 20 países e tem histórico de se ajustar a mudanças regulatórias.
No curto prazo, porém, a medida pode não ter efeito imediato sobre os preços. Especialistas apontam que a escassez de gado e as restrições sanitárias (como a suspensão das importações mexicanas) continuarão pressionando a oferta. O anúncio de Trump é visto como um movimento político para mostrar ação contra a inflação, mas o impacto real dependerá da implementação e de como o mercado reagir.
O que brasileiros nos EUA podem fazer agora
Enquanto a ordem não sai, consumidores podem adotar estratégias para amenizar o impacto no orçamento. Vale ficar de olho em promoções de carne moída e cortes alternativos — como acém e peito — que costumam ter preços mais baixos. Além disso, a compra em atacado ou em açougues locais, que muitas vezes compram de pequenos produtores, pode ser mais vantajosa. Acompanhe os anúncios da secretária Rollins na segunda-feira; se houver novas regras para venda interestadual, pecuaristas menores podem passar a oferecer carne diretamente ao consumidor final, criando novas opções de compra.
Outra dica: verificar se há feiras de produtores rurais na sua região. Muitas vezes, pequenos pecuaristas vendem cortes frescos a preços mais competitivos que os supermercados. Embora a oferta seja limitada, a diversificação de fontes ajuda a diluir o custo. No longo prazo, se a ordem de Trump avançar, a tendência é que o mercado se torne mais competitivo — o que pode significar carnes mais baratas nas gôndolas.
Próximos passos: anúncios do USDA e eleições no horizonte
A partir de segunda-feira (31), a secretária Brooke Rollins promete revelar um pacote de medidas para ampliar o processamento de carne bovina. O governo deve anunciar a ampliação da capacidade dos pecuaristas venderem entre estados — hoje há barreiras que favorecem os grandes frigoríficos —, mais subsídios para pequenos matadouros e o fim de orientações do USDA consideradas obsoletas. O anúncio é um desdobramento direto da pressão política de Trump, que quer mostrar resultados concretos antes das eleições de novembro.
O contexto eleitoral é crucial. Os preços dos alimentos continuam sendo um dos principais itens de insatisfação popular, e a Casa Branca aposta em medidas antipoder de mercado para conquistar votos no interior do país, onde estão muitos pecuaristas. A promessa de Trump de quebrar o “monopólio nefasto” ressoa tanto entre produtores rurais quanto entre consumidores urbanos cansados de pagar caro pela carne.
Por ora, o setor processador não se manifestou. As quatro empresas (Cargill, Tyson, JBS USA e National Beef) não responderam a pedidos de comentário da Reuters. Já a Associação Nacional de Pecuaristas (NCBA) tem evitado críticas diretas, mas historicamente apoia a desregulamentação que facilite a venda direta. O desenrolar dessa disputa deve trazer mais capítulos nas próximas semanas — e impactar diretamente o custo de vida das famílias brasileiras nos EUA.


